Coruja-listrada, Strix hylophila.
Fotografar uma coruja durante a noite pode ser um desafio. Com pouca luz, o fotógrafo precisa recorrer a equipamentos que ajudem a iluminar a cena, como lanternas e flashes.
Mas surge uma dúvida importante: a luz intensa de um flash ou de uma lanterna pode prejudicar a visão das corujas?
A resposta mais honesta é: ainda não sabemos exatamente qual é o impacto dessas exposições sobre as corujas, porque existem poucos estudos específicos sobre o assunto. Porém, sabemos que uma luz muito intensa pode causar uma alteração temporária na visão e que isso pode representar um risco para uma ave que depende da visão durante a noite.
O que acontece com os olhos de uma coruja quando ela recebe um flash?
Os olhos das corujas respondem à luz de maneira semelhante aos olhos humanos. Quando uma ave adaptada à escuridão é repentinamente exposta a uma luz muito intensa, como o disparo de um flash, as células responsáveis pela captação da luz podem ficar temporariamente saturadas.
O resultado pode ser uma espécie de “cegueira funcional” momentânea, acompanhada por uma imagem residual brilhante. Durante esse período, a ave pode ter dificuldade para enxergar e reconhecer objetos.
Segundo o fisiologista Ellis Loew, da Cornell University College of Veterinary Medicine, a recuperação pode levar de alguns segundos a dezenas de segundos, dependendo da intensidade e da quantidade de luz recebida.
Isso não significa que um único flash necessariamente cause uma lesão permanente nos olhos da coruja. O problema é que, durante o período de recuperação, a ave pode ficar temporariamente em desvantagem.
Imagine, por exemplo, uma coruja voando à noite e recebendo uma sequência de flashes. Se sua visão ficar temporariamente comprometida, ela pode ter mais dificuldade para localizar uma presa, desviar de obstáculos ou realizar outras atividades importantes.
E as lanternas?
Uma lanterna também pode causar desconforto e alterar temporariamente a adaptação dos olhos à escuridão, principalmente quando é muito potente e direcionada diretamente para a ave.
Na prática, quem observa corujas à noite pode perceber diferentes reações. Algumas permanecem aparentemente indiferentes à iluminação, enquanto outras desviam a cabeça, mudam de posição ou simplesmente voam para longe.
Esse comportamento é importante.
Mesmo que não possamos afirmar que determinada intensidade de luz causará uma lesão nos olhos, se a coruja demonstra que está sendo incomodada, o correto é interromper ou reduzir a iluminação.
A própria Audubon recomenda atualmente evitar o uso de flash em aves noturnas, como corujas e bacuraus, porque a iluminação pode limitar temporariamente sua capacidade de caçar ou evitar obstáculos.
O problema não é apenas a visão
É importante lembrar que o bem-estar de uma coruja não depende apenas de seus olhos.
Uma coruja que é constantemente iluminada, perseguida ou forçada a mudar de posição pode sofrer alterações de comportamento. Se ela abandona um poleiro de descanso, interrompe uma atividade de caça ou precisa voar repetidamente para escapar de observadores, o impacto pode ser maior do que o causado pela própria luz.
Esse é um ponto importante na fotografia de animais silvestres: nem sempre conseguimos perceber o impacto que estamos causando apenas olhando para a reação imediata do animal.
Uma coruja que permanece parada pode não estar necessariamente confortável. Por isso, observar seu comportamento e evitar qualquer alteração desnecessária em sua rotina é fundamental.
Então nunca devemos fotografar corujas à noite?
Não é preciso chegar a esse extremo.
A fotografia de corujas pode ser uma excelente ferramenta para educação ambiental, pesquisa e divulgação científica. Fotografias bem produzidas ajudam as pessoas a conhecer essas aves e podem despertar interesse pela sua conservação.
O problema começa quando a fotografia passa a ser mais importante do que o bem-estar da ave.
Por isso, atualmente, a recomendação mais segura é adotar uma postura de precaução: quanto menos interferência, melhor.
Como fotografar uma coruja de maneira mais responsável?
Se você encontrar uma coruja durante uma saída noturna, algumas atitudes podem reduzir bastante a perturbação:
Evite o uso de flash diretamente sobre a coruja, principalmente em sessões prolongadas.
Se precisar utilizar iluminação, prefira a menor intensidade possível para realizar a observação ou o enquadramento.
Evite manter uma lanterna potente apontada diretamente para os olhos da ave por longos períodos.
Observe o comportamento da coruja. Se ela começar a mudar de posição, ficar inquieta, desviar constantemente o corpo ou voar para longe, pare ou reduza a iluminação.
Evite fazer a coruja voar propositalmente para conseguir uma fotografia.
Nunca persiga uma coruja com lanternas ou tente mantê-la iluminada enquanto ela se desloca.
Evite sessões longas de fotografia no mesmo indivíduo.
Sempre que possível, prepare a câmera antes de apontá-la para a ave, reduzindo o tempo necessário para fazer as fotos.
Dê preferência a equipamentos que permitam fotografar com pouca luz e sem a necessidade de iluminação intensa.
Essas recomendações seguem um princípio simples: a fotografia deve se adaptar à ave, e não a ave à fotografia.
E se eu usar uma lanterna fraca?
Uma iluminação menos intensa provavelmente reduz a perturbação em comparação com um feixe muito potente diretamente sobre a ave. Ainda assim, isso não significa que exista um nível universalmente comprovado como “seguro”.
Por isso, é melhor pensar em minimizar a exposição, e não em encontrar uma intensidade que permita iluminar a coruja durante vários minutos sem preocupação.
Uma alternativa é evitar apontar o centro do feixe diretamente para a ave. Usar uma iluminação mais periférica e menos intensa pode permitir que você localize e enquadre o animal sem submetê-lo a uma luz tão forte.
O mais importante é o bom senso
Durante muito tempo, a discussão sobre flash em corujas ficou presa a uma pergunta simples: “o flash machuca ou não machuca os olhos?”
Mas talvez essa não seja a melhor maneira de pensar sobre o problema.
Mesmo que um único disparo não cause uma lesão permanente, isso não significa que devemos fazer dezenas de disparos, iluminar continuamente a ave ou repetir a sessão durante vários minutos.
A ciência ainda não permite estabelecer com precisão qual quantidade de luz é segura para todas as espécies e situações. Diante dessa incerteza, o mais responsável é adotar o princípio da precaução.
Afinal, a fotografia é opcional. Para a coruja, enxergar, caçar, descansar e evitar perigos durante a noite são necessidades fundamentais.
A melhor fotografia é aquela que não coloca a ave em risco.
E, quando houver dúvida entre conseguir uma foto melhor ou deixar a coruja em paz, a escolha deve ser sempre pela coruja.