Urubu-de-cabeça-vermelha, Cathartes aura
Quando pensamos em aves de rapina, é comum imaginarmos águias, gaviões e falcões. Mas e os urubus? Eles também fazem parte desse grupo?
A resposta não é tão simples quanto parece. Durante muito tempo, pesquisadores e autores divergiram sobre a inclusão dos urubus entre as aves de rapina. A discussão envolve tanto a definição do que é uma “ave de rapina” quanto a própria história evolutiva desses animais.
Hoje, porém, existem bons argumentos científicos para considerar os urubus como aves de rapina.
Afinal, o que são aves de rapina?
O termo “aves de rapina” não corresponde a um único grupo taxonômico. Ele é utilizado para reunir aves de diferentes linhagens evolutivas que apresentam características associadas ao modo de vida predatório.
Águias, gaviões, falcões, corujas e outras aves tradicionalmente incluídas nesse grupo apresentam diferentes combinações de características, como visão aguçada, garras desenvolvidas, bicos especializados e grande capacidade de voo.
Mas existe um detalhe importante: nem todas as aves de rapina possuem todas essas características, nem todas são caçadoras ativas.
É justamente aí que começa a discussão sobre os urubus.
Por que algumas pessoas não consideram os urubus aves de rapina?
Os urubus são especializados principalmente no consumo de animais mortos. Em vez de perseguirem e capturarem suas presas, eles utilizam sua excelente visão para localizar carcaças e seu olfato, especialmente em algumas espécies, para encontrar alimento.
Suas garras também não funcionam como as de uma águia ou de um gavião, que podem ser utilizadas para agarrar e matar presas. Além disso, os bicos de muitas espécies de urubus não são suficientemente fortes para abrir sozinhos carcaças com pele resistente.
Por isso, alguns autores historicamente preferiram separar os urubus das chamadas aves de rapina.
Mas existe um problema nessa definição: ser um caçador ativo não é uma exigência para uma ave ser considerada uma ave de rapina.
Nem toda ave de rapina caça
Um bom exemplo são os abutres do Velho Mundo, que pertencem à mesma família das águias e são especialistas em consumir animais mortos.
Ou seja, o hábito de se alimentar de carcaças não impede que uma ave seja considerada uma ave de rapina.
Mesmo entre espécies que caçam ativamente, também existe bastante flexibilidade. O caracará (Caracara plancus), por exemplo, apresenta uma dieta extremamente variada e pode consumir frutos, invertebrados, pequenos animais e até carcaças de animais atropelados.
Portanto, reduzir o conceito de ave de rapina a “uma ave que caça e mata suas presas” é uma definição bastante limitada.
E o que a evolução diz sobre os urubus?
A história evolutiva dos urubus também é interessante.
Durante muito tempo, eles foram classificados de diferentes maneiras. Já foram considerados próximos dos falcões e gaviões e chegaram a ser relacionados às cegonhas. Estudos filogenéticos, entretanto, modificaram bastante essa visão.
As análises moleculares realizadas nas últimas décadas indicaram uma relação evolutiva próxima entre os urubus do Novo Mundo e os Accipitriformes, grupo que inclui águias, gaviões e espécies relacionadas. Estudos filogenômicos, como o de Hackett e colaboradores, foram importantes para essa mudança de entendimento.
Atualmente, os urubus são tratados como um grupo próprio, tradicionalmente reconhecido na ordem Cathartiformes, enquanto águias e gaviões estão na ordem Accipitriformes.
Mais importante do que o nome da ordem, porém, é entender que a classificação moderna considera a história evolutiva dos grupos, e não apenas a aparência ou o comportamento de uma espécie.
Urubus também possuem características típicas de rapinantes
Apesar das diferenças em relação às águias e aos gaviões, os urubus apresentam várias características que fazem sentido dentro do conceito moderno de aves de rapina.
Eles possuem excelente visão, capaz de localizar carcaças a grandes distâncias, além de uma extraordinária capacidade de voo.
É comum observar urubus planando durante longos períodos, aproveitando correntes de ar quente para ganhar altitude e percorrer grandes distâncias com pouco gasto de energia. Esse comportamento também é compartilhado por muitas águias e gaviões.
Além disso, alguns urubus podem capturar ou tentar capturar animais vivos ocasionalmente. Ou seja, mesmo sendo predominantemente necrófagos, eles não são completamente incapazes de predar.
Então, urubus são ou não são aves de rapina?
Sim. Eu considero os urubus aves de rapina.
E essa não é uma classificação baseada apenas na aparência. Ela também pode ser sustentada pela ecologia, pela morfologia e, principalmente, pelas evidências de parentesco evolutivo.
Uma definição moderna de aves de rapina, publicada no Journal of Raptor Research, inclui as ordens Accipitriformes, Cathartiformes, Strigiformes, Cariamiformes e Falconiformes. O próprio artigo destaca que a definição deve considerar principalmente a história evolutiva, em conjunto com características ecológicas e morfológicas.
Além disso, instituições e organizações especializadas em aves de rapina também incluem os urubus nesse grupo.
No Brasil, essa interpretação também aparece em documentos de conservação. O Plano de Ação Nacional para a Conservação de Aves de Rapina, elaborado pelo ICMBio, reconhece formalmente esse agrupamento no contexto da conservação das aves de rapina brasileiras.
Muito além de uma questão de classificação
Pode parecer uma discussão apenas acadêmica, mas definir quais espécies fazem parte das aves de rapina também tem consequências práticas.
Quando reconhecemos os urubus como parte desse grupo, eles passam a ser considerados em estudos, levantamentos, projetos de conservação e discussões específicas sobre essas aves.
E isso é importante porque os urubus desempenham um papel ecológico fundamental. Ao consumir animais mortos, eles ajudam a remover matéria orgânica do ambiente e participam de processos importantes para o funcionamento dos ecossistemas.
Portanto, os urubus podem não ser caçadores especializados como uma águia ou um gavião, mas isso não diminui sua importância nem impede que sejam considerados aves de rapina.
No fim das contas, talvez a melhor forma de entender essa questão seja abandonar a ideia de que uma ave precisa necessariamente ter garras enormes e capturar presas vivas para ser uma rapinante. A diversidade das aves de rapina é muito maior do que isso.
E os urubus são um excelente exemplo dessa diversidade.